sábado, 16 de maio de 2026

O Crepúsculo do Ancião

Vê-se na pele o mapa do passado,
Onde o cinzel do tempo fez ranhura,
A engrenagem do corpo, outrora dura,
Cede ao cansaço de um andar curvado.

Assiste à própria e lenta arquitetura
Desmoronar-se em vala de secura,
Num diagnóstico já sentenciado.
Não há revolta no pulsar cansado,

Apenas o relógio compassado
Que dita o fim da última jornada...
O olhar — espelho em baço degradado —

E o velho senta, só, sob o pálio,
Despindo a vida como quem larga o fálio,
Olhando o nada... e não temendo o nada.





sábado, 9 de maio de 2026

O Orvalho da Ausência

Restou do céu um choro represado,
Em cada nó de um galho que entristece,
A tarde, em cinza e mágoa, permanece
No brilho de um cristal dependurado.

São gotas — ou lembranças do passado? —
Que o vento, com cuidado, balança e tece,
Uma nostalgia antiga que aparece
No vulto de um jardim abandonado.

Cada esfera de luz guarda um segredo,
Na transparência baça d'agonia...
Um tempo que fugiu por entre os dedos,

E quando a gota cai, no chão perdida,
Leva consigo um pouco desta vida,
Que morre em cada fim de calmaria.



domingo, 26 de abril de 2026

A Tentação

 Sob o pálio de incensos e de ritos,
Ecoam Salmos numa prece vaticana!
Mas no vácuo dos seios nús, aflitos,
Vibra a carne e gemido que profana...

Canta o monge em tom hierofante,
Enquanto o nardo o espírito inebria;
Mas surge a sombra, em vulto ofegante,
Na merencória, mas sacrária liturgia...

É a tentação que o demônio inflama,
Em áureo fogo que esta alma clama,
Pecaminosa, entre incensos e turíbulo.

Eis que o desejo em gemido excita!
E a voz do céu, em agravo lhes vomita,
Ante o prazer, no profano vil prostíbulo.





sábado, 25 de abril de 2026

Outono e Destino

As folhas, em seu fulvo matizado,
 Pela relva, pincelam mortas-cores 
Onde o fatum, triste, abandonado,
 No pálio de angústias e torpores...

No banco, sob o brumo do passado,
 Minh'alma escuta a nota da canção;
 O amor é como o pélago: agitado,
 Ou mudo vácuo a invadir o coração.

"C'est la vie", diz o vento na ramagem,
 Limpando a face em róscida lavagem,
 Enquanto a sorte brinca de esconder.

Quem sabe o que o destino nos reserva?
 Se a dor em nós se cala ou se preserva...
 Viver também é ver... a folha fenecer.



terça-feira, 21 de abril de 2026

A Dança da Morte (This is America)

A arma é limpa em seda com cuidado,
Enquanto o corpo jaz, estendido ao chão...
O ritmo é frenético por todo lado,
Disfarçando o peso de uma louca mão...

Sorrisos brilham frente ao salão,
Numa coreografia de gestos ensaiados;
Na sede do poder, em combustão,
Dançam poderosos, livres e desvairados.

É o espetáculo que o horror consome,
Onde a moeda vale mais que a vida,
E o sangue, matéria prima de sua fome.

A besta ruge em uma festa genocida,
Matando a sede por mais sangue e dor,
Na dança inglória, em nome do Senhor...






quinta-feira, 16 de abril de 2026

Aurora do meu Amor

 

Aurora, de luz radiante e aguardada,
Presença viva que o peito aquece,
No ideal que em meu ser floresce,
Trazei-me a veste de cristal, bordada.
Em vez de lutos e das noites frias,
Surge o frescor da manhã, bonança,
Entre as cores vivas da esperança,
Labor da vida e em fecundos dias.
Quando a tarde, em tons se locupleta,
Tingindo em cores toda esta montanha,
Vertendo enfim, luzes ao esteta...

E na paleta de um céu profundo,
Vendo o negrume que o cosmo banha,
Segue esta alma pincelando o mundo!


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Augusto dos Anjos Inspira Dor

No cerne da poesia, musa desfigurada,
Na carne do poeta, fremita o coração...
Augusto inspirador, alma predestinada,
Poeta desconsolado, lírio da solidão...

Na míope visão do absconso da alma,
A dor esmiuçada no auge de sua vida;
Flui a inspiração tanto que lhe acalma,
Balsâmico elixir para alma desfalecida.

E assim o pranto no rosto que ora cai,
Junto com o amargor pois da vida sai,
Divina secreção, que à morte insinua...

A inspiração que acompanha o poeta,
Das dores e decepções do hábil esteta,
Semeada, lavrada, ao seio da terra nua.









segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Divina

Serena, formosa, desabrocha nas margens
Sorri por límpidas divinais figuras...
Das mais cândidas imaculadas e puras
Nascida no etéreo de oníricas paisagens...

Doçura de amor e ansiosas arfagens
No torpor lívido por entre as brumas...
Numa suavidade de delicadas plumas
Descortinou-se por tenras imagens...

Estranha forma, virginal e formosa!
De boca adocicada, sutilmente rosa,
Que em seu corpo, paira o céu a clarear...

​Permeiam as infinitas nostalgias!
Em mistérios de amor e as fantasias,
Com perfumes, inebriantes pelo ar... 



domingo, 7 de setembro de 2025

A Lagosta da Civilização


Do Éon turvo, em gruta de úmida lapa,
E um crustáceo, de pinça, vil, astuta,
Era o alimento, que só o instinto capta,
Na fome atróz que a vida nos imputa.

​Sem talher, na mão o gume adapta,
A carne arranca, em dor, mas resoluta,
A fera humana, que à morte não escapa,
Trincava o ser, tamanha força bruta.

Eis que o Século em Paris se alteia!
Em belo prato, espeita a iguaria,
Era a lagosta, servida em fina ceia.

​Ah! Se o bruto, selvagem, caricato,
Ali surgisse, voraz em seu instinto,
O menu chique, seria um tolo ato...



   🦞🦞🦞

Essa é uma cena fascinante! Misturar um ambiente de alta cultura com o instinto puro da sobrevivência resultaria em uma cena que seria ao mesmo tempo hilária, confusa e reveladora.
​A cena mais provável seria de um completo choque entre instinto e ritual.
​O ser pré-histórico, ao entrar no restaurante, não veria a decoração luxuosa, as mesas arrumadas ou a música suave. Ele sentiria o cheiro da comida. Sua única preocupação seria a necessidade biológica de se alimentar. Quando a lagosta fosse colocada em seu prato, ele a reconheceria imediatamente como uma fonte de alimento, mas o resto seria pura confusão.
​A Cena em Detalhes
​Ignorando o Ritual: O garçom apresentaria o prato com elegância, mas o ser pré-histórico não faria a menor ideia do que fazer com os talheres e o quebra-nozes. Seu instinto mais forte diria: "Use a ferramenta mais eficaz que você tem", e essa ferramenta seriam suas mãos.
​O Ataque à Lagosta: Sem hesitar, ele pegaria a lagosta com as duas mãos. As outras pessoas na mesa e nos arredores se entreolhariam, chocadas. Ele usaria a força bruta para arrancar as pinças e a cauda. O som de uma lagosta sendo quebrada de forma violenta em um ambiente silencioso seria ensurdecedor.
​Comendo sem Etiqueta: Ele arrancaria a carne de dentro da casca e a devoraria sem usar prato, garfo ou guardanapo. Haveria estalos, talvez respingos. Para ele, o objetivo seria simplesmente ingerir o alimento o mais rápido possível.
​A Reação do Público: Os outros clientes ficariam atônitos. O garçom provavelmente correria para buscar um balde de gelo ou tentar intervir, mas o ser pré-histórico estaria completamente focado na tarefa. Para ele, os olhares assustados e os sussurros seriam insignificantes.
​Análise da Cena
​A cena mais provável seria a de um triunfo do instinto sobre a civilização. O ser pré-histórico alcançaria seu objetivo de comer a lagosta, mas o faria de uma forma que desafiaria e destruiria completamente todas as regras e rituais que a sociedade construiu ao longo de milênios. Seria uma prova de que, no fundo, a necessidade de se alimentar é universal, enquanto as maneiras de fazê-lo são apenas invenções culturais. A única diferença, no fim, é que ele estaria satisfeito, e todos os outros estariam em choque.




domingo, 29 de junho de 2025

Trova de Amor

Tua beleza a me encantar,
Entre as flores, pura luz,
Faz a graça me guiar,
Em teu ser que me seduz.

Teu encanto me domina,
Pura essência em esplendor,
Tanta graça que fascina,
De um eterno e doce amor.

Canto triste a me invadir,
Que o amor na alma vem,
É a esperança a me cingir,
Do amor que me faz bem.

Se o amor tornasse em ti,
Flor eterna em meu viver,
São canções pairando aqui,
Em meu mundo renascer.