terça-feira, 23 de junho de 2026
Repouso do Infinito
Em passos vãos, na trilha que não finda,
A alma vagou, tremendo ao imenso abraço
Do Cosmo mudo, onde a razão desvinda
A própria fresta de um perdido traço.
A vertigem de ver a luz tão inda,
E o tempo eterno num contínuo laço,
Foi o susto de ser, na voz ainda,
Um grão de poeira a flutuar no espaço.
Mas eis que o medo, enfim, se transfigura;
O abismo assustador vira acalanto,
Num sono doce de final ventura.
Cessa o tremor e todo o desencanto:
A consciência, livre da moldura,
Descansa em Deus, no infinito manto.
domingo, 31 de maio de 2026
Ode à Rosa
Oh, Sinfonia de místicas brancuras,Rosa rutilante, de puros esplendores,Tu trazes nos teus bíblicos amoresA carne espiritual das virgens puras.
Vagas ilusões das delicadas formas,Exalam dos teus lábios tal incenso;Num delírio santo, puro, imenso,Transcende as humanas leis e normas.
Acordes de um fado dolente e místico,Soluçam na penumbra e das naves;Subindo os teus salmos tão suaves,Para o altar de um sonho cabalístico.
Tua graça de deusa, imaculada,Fecunda a alma em dores e harmonias;Nos seios níveos, em pranto e elegias,Na pompa de uma luz agonizada.
Cândida rosa, essência inaudita,Que no silêncio do infinito brilha!Tu és um afago, musa e maravilha,Que na agonia do meu verso habita.
Ah! Que os segredos destas flores santasPerfumes fundam na alma alucinada!E a noite estenda a túnica sagradaNas cordas de ouro das canções que cantas.
Em lírios brancos teu porvir expressa,No altar do céu, em místico concerto;E o meu soluço, na penumbra verto,Clamando em cinza imortal promessa!
segunda-feira, 25 de maio de 2026
A Catedral
Vós, que ergueis na pedra o vosso grito,E em cada arco que o clamor evoca;É nesta agulha que ao céu lhe toca;Pois ela é a prece de um mundo aflito.O tempo é a mão que a matéria corta,E nós, os mármores que o divino acabaNesta nave que o silêncio fala,E a voz que do céu que a alma exorta.Deixai o claustro, a névoa e a heresia,Vinde, que o pó traz a eternidade,Na catedral de nossa elegia.Não vedes a luz sob a cinza fria?Ela é o aforismo da fragilidade,Que brilha na sombra d'agonia.
sábado, 16 de maio de 2026
O Crepúsculo do Ancião
Vê-se na pele o mapa do passado,
Onde o cinzel do tempo fez ranhura,
A engrenagem do corpo, outrora dura,
Cede ao cansaço de um andar curvado.
Assiste à própria e lenta arquitetura
Desmoronar-se em vala de secura,
Num diagnóstico já sentenciado.
Não há revolta no pulsar cansado,
Apenas o relógio compassado
Que dita o fim da última jornada...
O olhar — espelho em baço degradado —
E o velho senta, só, sob o pálio,
Despindo a vida como quem larga o fálio,
Olhando o nada... e não temendo o nada.
sábado, 9 de maio de 2026
O Orvalho da Ausência
Restou do céu um choro represado,
Em cada nó de um galho que entristece,
A tarde, em cinza e mágoa, permanece
No brilho de um cristal dependurado.
São gotas — ou lembranças do passado? —
Que o vento, com cuidado, balança e tece,
Uma nostalgia antiga que aparece
No vulto de um jardim abandonado.
Cada esfera de luz guarda um segredo,
Na transparência baça d'agonia...
Um tempo que fugiu por entre os dedos,
E quando a gota cai, no chão perdida,
Leva consigo um pouco desta vida,
Que morre em cada fim de calmaria.

domingo, 26 de abril de 2026
A Tentação
Sob o pálio de incensos e de ritos,Ecoam Salmos numa prece vaticana!Mas no vácuo dos seios nús, aflitos,Vibra a carne e gemido que profana...
Canta o monge em tom hierofante,Enquanto o nardo o espírito inebria;Mas surge a sombra, em vulto ofegante,Na merencória, mas sacrária liturgia...
É a tentação que o demônio inflama,Em áureo fogo que esta alma clama,Pecaminosa, entre incensos e turíbulo.
Eis que o desejo em gemido excita!E a voz do céu, em agravo lhes vomita,Ante o prazer, no profano vil prostíbulo.
sábado, 25 de abril de 2026
Outono e Destino
As folhas, em seu fulvo matizado,
Pela relva, pincelam mortas-cores
Onde o fatum, triste, abandonado,
No pálio de angústias e torpores...
No banco, sob o brumo do passado,
Minh'alma escuta a nota da canção;
O amor é como o pélago: agitado,
Ou mudo vácuo a invadir o coração.
"C'est la vie", diz o vento na ramagem,
Limpando a face em róscida lavagem,
Enquanto a sorte brinca de esconder.
Quem sabe o que o destino nos reserva?
Se a dor em nós se cala ou se preserva...
Viver também é ver... a folha fenecer.
terça-feira, 21 de abril de 2026
A Dança da Morte (This is America)
A arma é limpa em seda com cuidado,
Enquanto o corpo jaz, estendido ao chão...
O ritmo é frenético por todo lado,
Disfarçando o peso de uma louca mão...
Sorrisos brilham frente ao salão,
Numa coreografia de gestos ensaiados;
Na sede do poder, em combustão,
Dançam poderosos, livres e desvairados.
É o espetáculo que o horror consome,
Onde a moeda vale mais que a vida,
E o sangue, matéria prima de sua fome.
A besta ruge em uma festa genocida,
Matando a sede por mais sangue e dor,
Na dança inglória, em nome do Senhor...
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Aurora do meu Amor
Aurora, de luz radiante e aguardada,
Presença viva que o peito aquece,
No ideal que em meu ser floresce,
Trazei-me a veste de cristal, bordada.
Em vez de lutos e das noites frias,
Surge o frescor da manhã, bonança,
Entre as cores vivas da esperança,
Labor da vida e em fecundos dias.
Quando a tarde, em tons se locupleta,
Tingindo em cores toda esta montanha,
Vertendo enfim, luzes ao esteta...
E na paleta de um céu profundo,
Vendo o negrume que o cosmo banha,
Segue esta alma pincelando o mundo!
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