sábado, 25 de abril de 2026

A Tentação

Sob o pálio de incensos e de ritos,
Ecoam Salmos numa prece vaticana!
Mas no vácuo dos seios nús, aflitos,
Vibra a carne e gemido que profana...

Canta o monge em tom hierofante,
Enquanto o nardo o espírito inebria;
Mas surge a sombra, em vulto ofegante,
Na merencória, mas sacrária liturgia...

É a tentação que o demônio inflama,
Em áureo fogo que esta alma clama,
Pecaminosa, entre incensos e turíbulo.

Eis que o desejo em gemido excita!
E a voz do céu, em agravo lhes vomita,
Ante o prazer, no profano vil prostíbulo.


Outono e Destino

As folhas, em seu fulvo matizado,
Vagueiam pela relva, em dispersão...
 Tal qual o sentimento abandonado
 Que busca o pálio da minha solidão.

No banco, sob o brumo do passado,
 Minh'alma escuta a nota da canção;
 O amor é como o pélago: agitado,
 Ou mudo vácuo a invadir o coração.

"C'est la vie", diz o vento na ramagem,
 Limpando a face em róscida lavagem,
 Enquanto a sorte brinca de esconder.

Quem sabe o que o destino nos reserva?
 Se a dor em nós se cala ou se preserva...
 Viver também é ver... a folha fenecer.



terça-feira, 21 de abril de 2026

A Dança da Morte (This is America)

A arma é limpa em seda com cuidado,
Enquanto o corpo jaz, estendido ao chão...
O ritmo é frenético por todo lado,
Disfarçando o peso de uma louca mão...

Sorrisos brilham frente ao salão,
Numa coreografia de gestos ensaiados;
Na sede do poder, em combustão,
Dançam poderosos, livres e desvairados.

É o espetáculo que o horror consome,
Onde a moeda vale mais que a vida,
E o sangue, matéria prima de sua fome.

A besta ruge em uma festa genocida,
Matando a sede por mais sangue e dor,
Na dança inglória, em nome do Senhor...






quinta-feira, 16 de abril de 2026

Aurora do meu Amor

 

Aurora, de luz radiante e aguardada,
Presença viva que o peito aquece,
No ideal que em meu ser floresce,
Trazei-me a veste de cristal, bordada.
Em vez de lutos e das noites frias,
Surge o frescor da manhã, bonança,
Entre as cores vivas da esperança,
Labor da vida e em fecundos dias.
Quando a tarde, em tons se locupleta,
Tingindo em cores toda esta montanha,
Vertendo enfim, luzes ao esteta...

E na paleta de um céu profundo,
Vendo o negrume que o cosmo banha,
Segue esta alma pincelando o mundo!


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Augusto dos Anjos Inspira Dor

No cerne da poesia, musa desfigurada,
Na carne do poeta, fremita o coração...
Augusto inspirador, alma predestinada,
Poeta desconsolado, lírio da solidão...

Na míope visão do absconso da alma,
A dor esmiuçada no auge de sua vida;
Flui a inspiração tanto que lhe acalma,
Balsâmico elixir para alma desfalecida.

E assim o pranto no rosto que ora cai,
Junto com o amargor pois da vida sai,
Divina secreção, que à morte insinua...

A inspiração que acompanha o poeta,
Das dores e decepções do hábil esteta,
Semeada, lavrada, ao seio da terra nua.









segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Divina

Serena, formosa, desabrocha nas margens
Sorri por límpidas divinais figuras...
Das mais cândidas imaculadas e puras
Nascida no etéreo de oníricas paisagens...

Doçura de amor e ansiosas arfagens
No torpor lívido por entre as brumas...
Numa suavidade de delicadas plumas
Descortinou-se por tenras imagens...

Estranha forma, virginal e formosa!
De boca adocicada, sutilmente rosa,
Que em seu corpo, paira o céu a clarear...

​Permeiam as infinitas nostalgias!
Em mistérios de amor e as fantasias,
Com perfumes, inebriantes pelo ar... 



domingo, 7 de setembro de 2025

A Lagosta da Civilização


Do Éon turvo, em gruta de úmida lapa,
E um crustáceo, de pinça, vil, astuta,
Era o alimento, que só o instinto capta,
Na fome atróz que a vida nos imputa.

​Sem talher, na mão o gume adapta,
A carne arranca, em dor, mas resoluta,
A fera humana, que à morte não escapa,
Trincava o ser, tamanha força bruta.

Eis que o Século em Paris se alteia!
Em belo prato, espeita a iguaria,
Era a lagosta, servida em fina ceia.

​Ah! Se o bruto, selvagem, caricato,
Ali surgisse, voraz em seu instinto,
O menu chique, seria um tolo ato...



   🦞🦞🦞

Essa é uma cena fascinante! Misturar um ambiente de alta cultura com o instinto puro da sobrevivência resultaria em uma cena que seria ao mesmo tempo hilária, confusa e reveladora.
​A cena mais provável seria de um completo choque entre instinto e ritual.
​O ser pré-histórico, ao entrar no restaurante, não veria a decoração luxuosa, as mesas arrumadas ou a música suave. Ele sentiria o cheiro da comida. Sua única preocupação seria a necessidade biológica de se alimentar. Quando a lagosta fosse colocada em seu prato, ele a reconheceria imediatamente como uma fonte de alimento, mas o resto seria pura confusão.
​A Cena em Detalhes
​Ignorando o Ritual: O garçom apresentaria o prato com elegância, mas o ser pré-histórico não faria a menor ideia do que fazer com os talheres e o quebra-nozes. Seu instinto mais forte diria: "Use a ferramenta mais eficaz que você tem", e essa ferramenta seriam suas mãos.
​O Ataque à Lagosta: Sem hesitar, ele pegaria a lagosta com as duas mãos. As outras pessoas na mesa e nos arredores se entreolhariam, chocadas. Ele usaria a força bruta para arrancar as pinças e a cauda. O som de uma lagosta sendo quebrada de forma violenta em um ambiente silencioso seria ensurdecedor.
​Comendo sem Etiqueta: Ele arrancaria a carne de dentro da casca e a devoraria sem usar prato, garfo ou guardanapo. Haveria estalos, talvez respingos. Para ele, o objetivo seria simplesmente ingerir o alimento o mais rápido possível.
​A Reação do Público: Os outros clientes ficariam atônitos. O garçom provavelmente correria para buscar um balde de gelo ou tentar intervir, mas o ser pré-histórico estaria completamente focado na tarefa. Para ele, os olhares assustados e os sussurros seriam insignificantes.
​Análise da Cena
​A cena mais provável seria a de um triunfo do instinto sobre a civilização. O ser pré-histórico alcançaria seu objetivo de comer a lagosta, mas o faria de uma forma que desafiaria e destruiria completamente todas as regras e rituais que a sociedade construiu ao longo de milênios. Seria uma prova de que, no fundo, a necessidade de se alimentar é universal, enquanto as maneiras de fazê-lo são apenas invenções culturais. A única diferença, no fim, é que ele estaria satisfeito, e todos os outros estariam em choque.




domingo, 29 de junho de 2025

Trova de Amor

Tua beleza a me encantar,
Entre as flores, pura luz,
Faz a graça me guiar,
Em teu ser que me seduz.

Teu encanto me domina,
Pura essência em esplendor,
Tanta graça que fascina,
De um eterno e doce amor.

Canto triste a me invadir,
Que o amor na alma vem,
É a esperança a me cingir,
Do amor que me faz bem.

Se o amor tornasse em ti,
Flor eterna em meu viver,
São canções pairando aqui,
Em meu mundo renascer.






domingo, 22 de junho de 2025

Carma Evolutivo

Num desfecho intrigante vem a morte afinal,
Em uma longa espera, para a vida encerrar.
Com seus braços na espera da lida corporal,
Feito sombra passageira, para nos agasalhar...

Na fronteira insondável de moradas infinitas,
Comovente, misteriosa, para nos encaminhar;
E que hoje simboliza o descanso dessas lidas,
E num último suspiro, para que se preocupar?

Quando estivermos a caminho do insondável,
Ilusões se findarão, das loucuras execráveis,
E esse corpo, nossa roupa, iremos descartar.

É quando vem as luzes do esplendor celestial,
Pra vencer a morte e para vidas memoráveis,
Em astrais desagregados, noutra vida encarnar!


Reflexões sobre o Poema e a Roda de Samsara

O poema aborda a morte não como um fim absoluto, mas como uma transição, uma "sombra passageira" que "agasalha" e "encaminha". Isso se alinha perfeitamente com a ideia de Samsara, onde a morte é apenas um portal para uma nova existência.

Alguns pontos que se conectam diretamente:

  • "Num desfecho intrigante vem a morte afinal... Feito sombra passageira, para nos agasalhar...": Essa descrição da morte ressoa com a visão das tradições indianas. A morte não é o "fim", mas um passo natural no ciclo. A ideia de "agasalhar" pode ser vista como a alma ou consciência se preparando para deixar o corpo atual.
  • "Na fronteira insondável de moradas infinitas...": As "moradas infinitas" podem ser interpretadas como os seis reinos de Samsara que mencionamos, ou os incontáveis ciclos de renascimento em diferentes formas e estados de existência. A fronteira insondável é o mistério da transição entre uma vida e outra, ditada pelo carma.
  • "E que hoje simboliza o descanso dessas lidas, E num último suspiro, para que se preocupar?": Embora Samsara seja visto como um ciclo de sofrimento ("lidas"), o poema sugere um descanso momentâneo na morte, um alívio das preocupações da vida presente. Isso pode ser interpretado como a pausa antes de uma nova jornada na roda.
  • "Quando estivermos a caminho do insondável, Ilusões se findarão, das loucuras execráveis, E esse corpo, nossa roupa, iremos descartar.": Esta é uma das passagens mais conectadas aos conceitos de Samsara e da busca por Moksha/Nirvana.
    • As "ilusões" que se findarão são a ignorância (avidya), os "venenos" que nos prendem. O reconhecimento de que o corpo é apenas uma "roupa" a ser descartada reflete a compreensão da impermanência (anicca) e da natureza não-permanente do eu (anatta). A libertação envolve largar as ilusões e apegos a esta forma física.
    • As "loucuras execráveis" podem ser as paixões, aversões e delírios que geram mau carma e mantêm o ciclo.
  • "É quando vem as luzes do esplendor celestial, Pra vencer a morte e para vidas memoráveis, Em astrais desagregados, noutra vida encarnar!": Aqui, o poema toca na ideia do renascimento. As "luzes do esplendor celestial" podem simbolizar a natureza da consciência que continua ou as visões que acompanham o processo da morte e renascimento em algumas tradições. "Vencer a morte" pode ser interpretado não como evitar a morte física, mas como transcender o ciclo de mortes e renascimentos através da libertação (Moksha/Nirvana), ou, no contexto de "noutra vida encarnar", como a continuidade da existência.

O poema capta a essência da transitoriedade da vida, a inevitabilidade da morte como porta para outra existência e a ideia de que a libertação das ilusões é fundamental. É uma bela contemplação sobre a impermanência e a jornada da alma (ou consciência) através dos ciclos.






domingo, 4 de maio de 2025

Pintura Crepuscular

O sol, na sua queda inexorável,
Em óleo denso, ao findar a luz,
Reflete a dor, sombra, inevitável
No oceano, que ao céu conduz.

Na paleta, um tom crepuscular, 
Sombria imagem, do anoitecer 
Um oiro espectral, espetacular, 
No azul profundo, faz aparecer.

E no além que a cor tingiu,
Finda-se o brilho que sucumbiu
De um sol triste, empalidecido...

Eis a noite, em negro encerrar,
Com estrelas, para acrescentar,
Na visão, de um céu adormecido.